Uso de inteligência artificial no diagnóstico médico cresce e ganha regras no Brasil
O uso de ferramentas de inteligência artificial (IA) para pesquisar sintomas e possíveis doenças se tornou cada vez mais comum. No Brasil, um estudo da plataforma Olá Doutor aponta que sete em cada dez brasileiros recorreram à tecnologia no último ano para tirar dúvidas sobre saúde. A popularização dos chatbots, porém, também aumenta a preocupação com diagnósticos incorretos e informações sem comprovação científica.
No Brasil, o Conselho Federal de Medicina (CFM) estabeleceu, em março, regras específicas para o uso da inteligência artificial na prática médica. A resolução determina que a tecnologia deve funcionar como ferramenta de apoio, sem substituir a decisão clínica. O diagnóstico e o tratamento continuam sob responsabilidade do médico, que não pode ser obrigado a seguir uma recomendação produzida por IA. Os sistemas também não podem comunicar diretamente ao paciente diagnósticos ou decisões terapêuticas sem mediação humana.
Quando a IA for utilizada como apoio à decisão médica, seu uso deverá ser registrado no prontuário. Antes da adoção de uma tecnologia, também devem ser avaliados fatores como o impacto sobre direitos fundamentais, a sensibilidade dos dados utilizados, o grau de autonomia do sistema e os riscos envolvidos no contexto clínico. Instituições que desenvolverem sistemas próprios deverão criar uma Comissão de IA e Telemedicina. Ferramentas que não respeitem a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) não poderão ser utilizadas.
O cuidado também vale para quem pesquisa sintomas por conta própria. Uma hipótese encontrada em um chatbot pode ser levada ao consultório e discutida com o médico, mas não substitui histórico clínico, exames e avaliação individual. As ferramentas podem apresentar informações incorretas com aparência de certeza, omitir contraindicações e não reconhecer situações que exigem atendimento imediato.
Uma pesquisa publicada na revista científica BMJ Open reforça o alerta. O estudo analisou respostas de ferramentas como ChatGPT, Gemini, Meta AI, Grok e DeepSeek e identificou problemas em cerca de metade das respostas sobre saúde. Entre os riscos estão informações sem fundamento científico, referências inexistentes e o chamado “falso equilíbrio”, quando opiniões sem comprovação aparecem ao lado de evidências científicas.
Parte do problema está na própria origem dos dados usados para treinar as IAs. Os sistemas podem recorrer a conteúdos públicos da internet, incluindo redes sociais e fóruns, onde informações confiáveis convivem com relatos pessoais, opiniões e conteúdos sem comprovação. A tecnologia, portanto, pode ser útil para organizar informações e levantar possibilidades, mas a interpretação clínica e a decisão sobre o tratamento continuam dependendo de profissionais de saúde.
Foto: PublicDomainPictures from Pixabay
