Bets ampliam impactos na saúde e levam Unicamp a criar ambulatório para dependentes
O avanço das apostas eletrônicas no Brasil já produz efeitos que vão além do endividamento e atingem a saúde mental, as relações familiares e a qualidade de vida. Em Campinas, o Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp abriu um ambulatório específico para atender pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas eletrônicas, após identificar o aumento de casos entre pacientes que já buscavam atendimento psiquiátrico.
O serviço funciona às quartas-feiras, das 8h às 11h30, no ambulatório de Psiquiatria do HC, sem necessidade de agendamento. A iniciativa é conduzida pelo Ambulatório de Substâncias Psicoativas (Aspa), que passou a receber também pessoas sem histórico de dependência química, mas que apresentavam perda de controle sobre jogos e apostas.
O transtorno do jogo, também chamado de ludopatia, caracteriza-se pela dificuldade de controlar o início, a frequência, a intensidade e a duração das apostas. A facilidade de acesso por meio dos celulares favorece a continuidade do comportamento, que pode passar a ocupar o espaço de outras atividades e interesses. Em muitos casos, a dependência é acompanhada por vergonha e dificuldade de reconhecer o problema.
Dados do Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad III), realizado em parceria entre a Unifesp e o Ministério da Justiça, indicam que usuários de sites e aplicativos de apostas têm quatro vezes mais probabilidade de desenvolver problemas relacionados ao jogo. Adolescentes e pessoas de menor renda apresentam risco três vezes maior, enquanto entre os homens a incidência é duas vezes superior.
Os efeitos também alcançam familiares. Pesquisa divulgada em agosto pelo estúdio Clarice, Estratégia Latina e Instituto Ideia mostra que 42% das mulheres brasileiras já apostaram ou continuam apostando em plataformas online. Entre as que nunca apostaram, 12% afirmam ser afetadas por parentes ou amigos que jogam. Ao todo, 54% das mulheres dizem sentir algum impacto das bets.
A pesquisa aponta ainda que 23% dos brasileiros presenciaram ou conhecem situações em que as apostas contribuíram para episódios de violência dentro das famílias. Conflitos, perda de confiança, desgaste emocional e redução da qualidade de vida estão entre os impactos relatados. Além disso, 40% dos entrevistados afetados pelas apostas acreditam que o comportamento prejudica a capacidade de trabalhar ou gerar renda.
As consequências também representam um problema de saúde pública. Estimativas citadas no debate sobre o tema apontam que os danos sociais e sanitários associados ao jogo problemático podem chegar a dezenas de bilhões de reais por ano no Brasil. Entre os efeitos estão o agravamento da depressão, a perda de qualidade de vida, o abuso de álcool e outras substâncias e casos de ideação suicida e suicídio relacionados ao endividamento e ao transtorno do jogo.
No HC da Unicamp, adultos passam por triagem, avaliação psiquiátrica e grupos de acolhimento. O tratamento começa com atividades coletivas e, quando necessário, pode incluir medicamentos para auxiliar no controle do impulso. Para adolescentes, o atendimento é individual. Em maio, a equipe do Aspa também capacitou mais de 100 profissionais e estudantes da área da saúde de Campinas para qualificar a identificação e o encaminhamento dos casos na Rede de Atenção Psicossocial.
A criação do ambulatório reforça que o jogo problemático deixou de ser apenas uma questão financeira ou de entretenimento. O avanço das bets passou a exigir uma resposta de saúde pública, com prevenção, atendimento especializado e medidas capazes de reduzir a exposição da população à publicidade e ao acesso facilitado às plataformas.
