Roubo de medicamentos entre os principais crimes contra cargas no Brasil
O roubo de medicamentos ganhou espaço entre os principais alvos de cargas no Brasil no primeiro semestre de 2026. A participação dos produtos farmacêuticos nos prejuízos provocados pelo crime passou de 2,8% para 19% em um ano, fazendo o segmento subir da sexta para a terceira posição entre as categorias mais atingidas. Os dados são do Report Nstech de Roubo de Cargas.
A mudança também aparece na distribuição geográfica dos crimes. O Sudeste concentrou 77,2% dos prejuízos registrados no país, ante 60,5% no primeiro semestre de 2025. O Rio de Janeiro passou a liderar o ranking nacional, com 36,6% das perdas, contra 16,1% um ano antes. São Paulo respondeu por 30,9% e Minas Gerais, por 9,3%.
As ocorrências também se deslocaram para áreas urbanas. As vias urbanas concentraram 39,6% dos prejuízos, quase o dobro dos 20,4% registrados no mesmo período de 2025. Entre as rodovias, a BR-101 concentrou 17,1% das perdas, seguida pela BR-116, com 8,2%.
Outro ponto de mudança está nos horários. A madrugada passou a responder por 32,9% dos prejuízos, contra 14,4% no ano anterior, enquanto a noite concentrou 24,5%. Juntos, os dois períodos representaram 57,4% das perdas registradas pelas transportadoras. A quinta-feira permaneceu como o dia de maior concentração, com 22% dos prejuízos.
Entre os produtos visados estão medicamentos de alta demanda no mercado ilegal, como canetas utilizadas no tratamento da obesidade e psicoestimulantes. O interesse das quadrilhas, porém, também alcança medicamentos de alto custo, como oncológicos, imunobiológicos, terapias para doenças raras, fatores de coagulação e imunoglobulinas.
O problema ultrapassa o prejuízo financeiro. Muitos medicamentos dependem de condições específicas de armazenamento e transporte, como a manutenção de temperaturas entre 2°C e 8°C. Depois de um roubo, não há garantia de que a chamada cadeia de frio tenha sido preservada, o que pode comprometer a segurança do produto.
A preocupação também envolve medicamentos de origem não autorizada. Entidades médicas alertaram para a circulação de versões alternativas de produtos à base de semaglutida e tirzepatida, muitas vezes importados sem autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Em análise realizada pelo Centro de Informação e Assistência Toxicológica (CIATox) da Unicamp, uma das amostras apresentou concentração cerca de 60% superior à indicada no rótulo.
Nesse cenário, conhecer a procedência do medicamento adquirido também é uma forma de proteção. O consumidor deve verificar se o produto possui registro na Anvisa, se foi comprado em estabelecimento autorizado e se a embalagem apresenta informações que permitam identificar sua origem. Produtos comercializados por canais informais ou sem procedência comprovada podem representar riscos à saúde.
No campo legislativo, o Projeto de Lei 5.225/2026, protocolado na Câmara dos Deputados em agosto, propõe tratamento penal específico para crimes envolvendo medicamentos, insumos hospitalares e dispositivos médicos, com previsão de reclusão de até 14 anos para casos de roubo. A proposta também prevê medidas relacionadas ao comércio eletrônico quando houver conhecimento sobre a origem criminosa dos produtos.
O avanço dos roubos de medicamentos, portanto, envolve toda a cadeia, do transporte ao consumidor. Saber de onde vem o medicamento e como ele chegou às mãos de quem o vende é também uma maneira de reduzir os riscos associados a produtos desviados, falsificados ou armazenados de forma inadequada.
